Comandos físicos de regresso
- Francisco Mota

- há 8 horas
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Quando esperávamos que o futuro dos interiores dos automóveis fosse desprovido de botões físicos, substituídos por comandos digitais, eis que algumas marcas começam a recuar nesta fórmula. Muitos condutores (e reguladores!) exigem mais simplicidade na utilização e os construtores, simplesmente, não podem ignorá-los!

É uma das sensações mais desconcertantes do momento – para não dizer irritantes! –, falando de automóveis: entrar num carro moderno e não encontrar o “joystick” para a regulação dos espelhos retrovisores exteriores! Por mais que se procurem, na porta, à esquerda do volante ou na consola central, as localizações mais comuns do comando, não o encontramos! A conclusão é inevitável: está “algures” numa página do sistema multimédia, que controlamos em monitor tátil no centro do painel de bordo. E começa o processo de busca…
E, por mais que procuremos, raramente se encontram de imediato os ícones digitais (dois) necessários para a execução da tarefa: o primeiro para selecionar a função de ajuste dos retrovisores, o segundo para escolher entre o da esquerda e o da direita. Depois, o sistema remete a ação de ajuste para botões no volante, que podem ser físicos ou hápticos (isto é, sensíveis à pressão). O ajuste em si acaba por ser simples “q.b.”, mas, até lá chegarmos, o melhor mesmo é estacionarmos o carro e proceder à operação calmamente, pois fazê-lo em andamento obriga a desviar os olhos da estrada durante demasiado tempo, o que compromete a segurança na condução.

Este é apenas um dos exemplos do impacto da substituição de botões físicos por comandos digitais táteis. Existem outros, como a regulação da intensidade da regeneração de energia durante as desacelerações e travagens nos carros equipados com motorizações híbridos, igualmente “escondida” em páginas dos programas de infoentretenimento. Esta solução torna a utilização de carros híbridos e elétricos muito mais difícil, se comparada com automóveis que dispõem de botões físicos de ação direta ou patilhas no volante — a melhor solução para esta função, claramente. Mas, o exemplo mais caricato é, sem dúvida, a abertura da tampa do porta-luvas através de um ícone tátil “escondido” nas profundezas do programa multimédia!
Ergonomia “contra” custos
Quem conduz automóveis atuais saberá do que estou a falar, sobretudo quando leva a mão ao centro da consola e não encontra o tradicional botão rotativo do rádio ou os comandos físicos do sistema de climatização — mais duas vítimas do “encarceramento” no sistema multimédia. Os construtores mais atentos à necessidade de o condutor manter a atenção colocam, no rodapé do ecrã tátil, alguns ícones para acesso rápido à climatização, ao desembaciamento e aos quatro piscas. No entanto, nem todos o fazem com teclas físicas. Desligar o ar condicionado pode transformar-se numa tarefa que demora diversos minutos.
Talvez o exemplo mais radical seja o de uma marca norte-americana que decidiu abdicar até do seletor da transmissão, substituindo-a por um ícone deslizante localizado num canto do monitor central.
Do ponto de vista da ergonomia — a ciência que estuda a relação entre o ser humano e os objetos com que interage —, os botões físicos são superiores aos táteis colocados num monitor. E por um motivo simples: a chamada relação olhos-mãos. Com um botão físico, após algumas utilizações, o tato passa a ser suficiente para o localizar sem necessidade de confirmação visual.

No caso dos comandos táteis integrados num ecrã, frequentemente distribuídos por várias páginas e menus do sistema multimédia, é quase impossível realizar a ação sem desviar o olhar da estrada. E cada desconcentração representa um aumento real do risco e da insegurança.
Se os princípios da ergonomia, e o hábito dos condutores, favorecem, claramente, os botões físicos, tanto mais que os ícones digitais, muitas vezes, surgem posicionados no ecrã central, qual a razão para os construtores continuarem a apostar nos comandos táteis?
Três razões para a escolha
Existem, pelo menos, três razões para essa opção, nem todas colocando o condutor no centro das prioridades. A primeira prende-se com a integração dos diversos sistemas do automóvel em redes elétricas e eletrónicas cada vez mais complexas. Trata-se de um esforço de centralização que visa tornar a arquitetura mais simples, rápida e, sobretudo, barata. Uma redução de custos que, teoricamente, deveria beneficiar o consumidor final, mas que raramente é refletida no preço — pelo contrário!

A segunda está ligada à moda e à perceção de modernidade. Nos códigos estéticos atuais, nem sempre racionais, uma grande superfície tátil multifunções é sinónimo de sofisticação. A mudança de paradigma teve origem, como seria expectável, nos “smartphones”. Se um pequeno dispositivo de bolso pode ser controlado apenas através do toque, o mesmo pode acontecer num automóvel…
Este raciocínio ignora, contudo, um fator essencial: um “smartphone” deve ser utilizado apenas quando não estamos a conduzir, enquanto o ecrã tátil do automóvel é usado, precisamente, durante a condução. O nível de atenção exigido por um telemóvel moderno é incompatível com a condução, razão pela qual o uso do equipamento é proibido ao volante. Já a utilização do monitor no centro do painel de bordo do automóvel exige um nível de distração semelhante — ou superior —, mas essa ação, regulamentarmente, não é proibida.

Outro aspeto particularmente absurdo dos ecrãs modernos, sejam táteis ou não, é o seu brilho. Este efeito é associado a luxo e qualidade, razão pela qual os construtores de “smartphones” e automóveis o privilegiam, mesmo sabendo-se que a solução mais adequada, tecnicamente, é um ecrã mate e antirreflexo, como os utilizados em computadores portáteis profissionais. Algumas marcas chegaram mesmo a adotar superfícies antirreflexos, totalmente livres de brilhos e muito mais legíveis. No entanto, perante a preferência do mercado pelo “luxo” cintilante, acabaram por recuar.
A terceira razão é menos visível e ainda menos assumida. O Marketing apresenta os monitores táteis dos sistemas multimédia como opcionais dispendiosos, muitas vezes exclusivos das versões de topo. No entanto, a realidade, confirmada por engenheiros da indústria automóvel, é bem diferente: um ecrã tátil de dimensões médias é muito mais barato de produzir do que um conjunto de botões físicos, por exemplo, para controlar um sistema de climatização.
Um botão físico envolve várias peças em plástico, que exigem moldes dispendiosos, componentes metálicos de precisão, como molas e encaixes, e estudos específicos do som e da sensação tátil que produzem ao serem acionados. Tudo isto é seguido por um processo de montagem complexo. Em contraste, a produção em grande escala de circuitos eletrónicos e superfícies táteis, que são comuns a “smartphones” e a diversos dispositivos eletrónicos, é muitíssimo mais barata e simples.
Apesar de tudo indicar que os ecrãs táteis continuarão a proliferar e a aumentar de dimensões, num conceito minimalista defendido por alguns construtores, a verdade é que não são apenas as preferências dos condutores que estão a forçar o regresso aos botões físicos. A interferência evidente dos comandos digitais na atenção do condutor começa a ser discutida em vários fóruns especializados.

Um caso de segurança
Entidades como a Euro NCAP, entidade que avalia a segurança ativa e passiva dos automóveis novos introduzidos no mercado europeu, já levantaram esta questão e encontram-se a desenvolver novos testes de segurança centrados, precisamente, na utilização dos monitores táteis. Grupos de pressão a favor da segurança rodoviária também se têm pronunciado, enquanto os próprios condutores começam a ganhar consciência dos riscos associados às distrações constantes provocadas pelos sistemas multimédia.
Chegou-se ao ponto de concluir que muitos sistemas de assistência eletrónica à condução, como a travagem automática de emergência ou o controlo de saída da faixa de rodagem, são, em parte, uma resposta às distrações permanentes dos condutores. Se os” smartphones” continuam a ser a principal causa de distração ao volante, a consulta do ecrã tátil do automóvel, no mesmo “ranking”, encontra-se na segunda posição!

Tudo aponta para que uma solução equilibrada, combinando ecrãs táteis com botões físicos, seja a abordagem mais sensata. Os botões continuam a ser a melhor solução ergonómica para funções de uso frequente, como a climatização, o áudio, a ligação ao “smartphone” ou a regulação da intensidade da regeneração da travagem em carros com motorizações elétricas e híbridos.
Os comandos táteis e hápticos são adequados para funções de utilização menos frequente, como a navegação, as configurações da iluminação interior e outras funções do mesmo género. O problema surge sempre que existe um conflito entre ergonomia, Marketing e custos de produção. Para resolvê-lo, recomenda-se decisão a favor do condutor (isto é, algo que não o obrigue a adaptar-se a sistemas pouco intuitivos que comprometem a segurança dos ocupantes.
No final, muitos condutores acabam por abdicar de utilizar várias funções disponíveis nos “labirintos” dos sistemas multimédia, por serem de utilização demasiado maçadora. Um absurdo completo!













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