Stellantis perde 4000 milhões em liquidez
A Stellantis registou um fluxo de caixa industrial negativo de 4000 milhões de euros no terceiro trimestre do ano, apesar da melhoria dos resultados operacionais e do avanço do programa de redução de custos liderado pelo administrador-delegado Antonio Filosa. O consórcio franco-italo-americano mantém, ainda assim, o objetivo de regressar a um fluxo positivo em 2027.

Entre julho e setembro, segundo os números divulgados pela Stellantis, as receitas aumentaram 1%, para 37,6 mil milhões de euros, enquanto o resultado operacional ajustado subiu de 90 para 256 milhões de euros. A margem correspondente passou de 0,2% para 0,7% e o prejuízo líquido recuou de 4,532 mil milhões para 453 milhões de euros, embora esta comparação seja influenciada pelos elevados encargos extraordinários registados há um ano.
O consumo de liquidez também melhorou ligeiramente face aos 4,3 mil milhões de euros negativos registados no terceiro trimestre de 2025, mas continua a representar um dos maiores desafios da administração liderada por Filosa. No final de setembro, a liquidez da Stellantis ascendia a 42,7 mil milhões de euros.
A evolução dos resultados ficou acima das expectativas. Segundo a Reuters, o consenso dos analistas apontava para um resultado operacional ajustado de 191 milhões de euros, número bastante abaixo dos 256 milhões apresentados pelo segundo maior fabricante europeu de automóveis. A reação dos mercados foi positiva, com as ações da Stellantis a chegarem a valorizar cerca de 15% na Bolsa de Milão.

Europa continua no vermelho
A Europa foi a única região da Stellantis a apresentar um resultado operacional ajustado negativo, com um prejuízo de 311 milhões de euros, depois de ter conseguido um lucro de 157 milhões no mesmo período do ano passado. A empresa explica este resultado com um ambiente comercial marcado por forte pressão sobre os preços, cujos efeitos continuam a superar as poupanças conseguidas através das medidas de redução de custos.
Na América do Norte, historicamente uma das regiões mais rentáveis do grupo, os resultados regressaram a terreno positivo, passando de um prejuízo de 475 milhões para um lucro operacional ajustado de 64 milhões de euros. As receitas, porém, diminuíram 3%. A América do Sul foi a zona mais lucrativa, com 431 milhões de euros de resultado operacional ajustado, números em linha com os registados no mesmo período do ano anterior. Médio Oriente e África contribuíram com 244 milhões de euros, menos 10%.
Nos EUA, durante o período em causa, a Stellantis manteve o programa de redução dos inventários. No final de setembro, os concessionários tinham cerca de 368.000 automóveis em “stock”, equivalentes a 84 dias de vendas, contra 92 no final de junho. A companhia pretende terminar o ano com entre 320.000 e 350.000 unidades.

80 “salas de guerra” para melhorar qualidade
Filosa considera que o plano de recuperação está a produzir resultados não só nos custos, mas também na qualidade dos automóveis. Em entrevista à Bloomberg, o administrador-delegado do consórcio confirmou a criação de cerca de 80 “war rooms”, ou “salas de guerra”, destinadas especificamente à resolução de problemas de qualidade. Estas equipas juntam especialistas de engenharia e produção da Stellantis com técnicos dos fornecedores e recorre também ao apoio da Inteligência Artificial para acelerar a identificação e correção de falhas.
A qualidade tornou-se uma das prioridades da nova administração depois de vários problemas terem aumentado os custos com garantias e campanhas de recolha. Simultaneamente, afetaram a confiança dos consumidores. Entre os casos identificados encontram-se falhas no sistema elétrico de 12 V utilizado em automóveis comercializados na América do Norte, problemas associados aos anteriores motores PureTech e campanhas recentes envolvendo versões híbridas do Jeep Wrangler devido a risco de incêndio.
Há 15 meses, disse Filosa à Bloomberg, a Stellantis estava atrás da concorrência na qualidade do sistema de 12 V, mas existe a expectativa de que o desempenho desse componente esteja entre os 25% melhores da indústria no prazo de apenas dois meses.

Objetivo: poupar 6000 milhões
Em paralelo, a Stellantis está a acelerar o denominado Value Creation Program, através do qual pretende alcançar 6000 milhões de euros de poupanças anuais.
Filosa garante que o grupo continua no caminho para implementar, até ao final do ano, pelo menos 40% das medidas necessárias para atingir esse objetivo. Depois de uma contribuição de cerca de 300 milhões de euros no terceiro trimestre, espera-se que o programa acrescente mais 500 a 600 milhões de euros no quarto trimestre.
As medidas abrangem o aumento da eficiência das fábricas, reorganização da logística e redução de custos junto dos fornecedores. A empresa está ainda a recuperar internamente algumas operações que estavam externalizadas, entre elas processos de estampagem a quente na América do Norte. Filosa disse também que a Stellantis está a analisar componentes como as cablagens elétricas, com o objetivo de reduzir a utilização de cobre, devido ao elevado custo desta matéria-prima.

Manutenção das 14 marcas
Finalmente, Filosa afastou a possibilidade de venda de qualquer uma das 14 marcas do consórcio, respondendo que a Stellantis está “muito satisfeita” com o portefólio e que nenhuma das insígnias está à venda. Esta declaração “sossega” a Maserati, uma das marcas mais penalizada pela forte quebra de vendas e os prejuízos acumulados. A nova estratégia para este fabricante tem apresentação marcada para 10 de dezembro, em Modena, Itália.






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