Made in Europe pode sair caro
Ola Källenius, administrador-delegado da Mercedes-Benz e presidente da Associação dos Fabricantes Europeus de Automóveis (ACEA), diz que as medidas planeadas pela União Europeia (EU) para proteger a produção automóvel na região podem originar aumentos de custos, perturbações nas cadeias de abastecimento e, no limite, tornar os automóveis produzidos no continente ainda mais caros.

A Europa procura reforçar a sua base industrial e reduzir dependências externas, mas o sueco de 57 anos que comanda o consórcio alemão desde maio de 2019 (sucedeu ao carismático Dieter Zetsche e tem contrato com a empresa até meados de 2019) alerta para o facto de não existirem soluções sem contrapartidas. Källenius considera que as maiores exigências de produção e conteúdo local podem aumentar a resiliência, mas também elevar os custos.
“Cria-se resiliência, o que é positivo, mas aumentam-se os custos”
Durante discurso no encontro Berlin Global Dialogue, em Berlim, na Alemanha, Källenius lembrou que um automóvel moderno integra milhares de componentes provenientes de diferentes regiões do mundo, resultado de cadeias de abastecimento construídas durante décadas para reduzir custos, aumentar a eficiência e beneficiar da especialização de diferentes fornecedores. “Cria-se resiliência, o que é positivo, mas aumentam-se os custos”, afirmou, apresentando a questão como “um exercício de equilíbrio”.

Esta posição surge numa altura em que a EU, reagindo a pressões dos fabricantes, procura reforçar o conceito de produção europeia e reduzir dependências estratégicas. França e Alemanha, recentemente, chegaram a um entendimento que inclui critérios de produção europeia e abre a porta ao reconhecimento de parceiros externos considerados muito próximos, como o Reino Unido.
Källenius, no entanto, considera que a Europa não pode transformar-se “numa espécie de ilha” e deixar de fazer negócios com parceiros como EUA, China, Japão, Coreia do Sul ou Índia. Na opinião do executivo sueco, a resposta deve passar também por mais acordos comerciais, e não só pela criação de novas barreiras.

Proteger sem aumentar o preço
A questão é delicada para os fabricantes europeus. Por um lado, a indústria tem pedido à Comissão Europeia (CE) que crie condições de concorrência mais equilibradas perante fabricantes apoiados por políticas industriais e subsídios estatais noutros mercados, o caso dos chineses. Por outro, regras demasiado rígidas de conteúdo local ou novas limitações às cadeias globais de fornecimento podem aumentar os próprios custos de produção dos construtores europeus e refletir-se no preço final dos automóveis.
Este equilíbrio é ainda mais importante com o crescimento das importações chinesas. UE e China concordaram como uma redução significativa, durante os próximos quatro anos, das exportações de automóveis híbridos chineses para o mercado europeu.

No entanto, a dependência da China é evidente nalgumas áreas do setor automóvel. Em 2025, 42% dos carros elétricos importados pela UE de países exteriores ao bloco tiveram origem na China, embora a percentagem tenha diminuído relativamente ao ano anterior.
É aí que reside a contradição apontada por Källenius. A Europa pretende proteger emprego, investimento, conhecimento tecnológico e capacidade de produção, mas a indústria automóvel europeia depende de uma cadeia de fornecimento globalizada. Baterias, semicondutores, matérias-primas, componentes eletrónicos e inúmeros outros elementos são produzidos em diferentes regiões do mundo, uma vez que isso permite obter custos mais baixos ou elimina incapacidade europeia.
A transferência de mais produção para o continente pode aumentar a segurança de abastecimento e reduzir as vulnerabilidades geopolíticas, mas também poderá exigir novos investimentos e aumentar o custo de componentes adquiridos em regiões com maior escala ou custos de produção inferiores. Källenius não rejeita a necessidade de maior resiliência nem ignora a mudança do enquadramento, mas é contra uma resposta baseada apenas no protecionismo dos mercados.
Aparentemente, este equilíbrio é quase tão difícil como a mudança de paradigma do motor de combustão interna para o elétrico!…






Comentários