Kia Stonic 1.0 T-GDi 100 cv Tech
- Pedro Junceiro

- há 8 minutos
- 4 min de leitura
Nas carreiras comerciais de quase todos os carros, existem atualizações de meio de ciclo discretas, mas também há intervenções como esta. O Kia Stonic, automóvel de 2017, apresentasse-nos, agora, muito revisto, numa intervenção que é bem mais do que o “facelift” tão comum. A marca não se limitou a retocar pormenores: reposicionou o modelo estética e tecnologicamente, reagindo proactivamente ao aumento da competitividade no segmento. É a evolução estratégica necessária para pilar comercial da Kia em Portugal.

O Stonic é, sem exagero, um dos casos mais consistentes de sucesso entre os “crossovers” que concorrem no segmento B. Desde a sua introdução, que remonta já a 2017, contribuiu para a massificação deste tipo de propostas no mercado europeu e foi capaz de manter-se relevante mesmo perante uma concorrência cada vez mais competente e numerosa.
Os registos nacionais comprovam-no: em 2025, a Kia matriculou 2877 unidades, superando as 2587 de 2024, aumento que demonstra capacidade de resistência à erosão do tempo e confirma a trajetória comercial sólida do Kia mais vendido no nosso País.
Mas a pressão competitiva não abranda — e a Kia responda à altura. A atualização agora introduzida no segmento B é tão profunda que só as portas laterais transitarem da modelo que “saiu de cena”! O novo Stonic aproxima-se, visualmente, dos restantes membros de gama que não pára de aumentar, adotando a linguagem “Opposites United”. A assinatura luminosa “Star Map” na dianteira, a grelha redesenhada e os para-choques novos conferem-lhe uma presença mais moderna e, sobretudo, mais alinhada com a identidade moderna da marca sul-coreana.
A traseira acompanha esta evolução, com farolins novos de maior expressão visual e um para-choques redesenhado. O conjunto resulta mais coeso e contemporâneo — não descaracteriza o Stonic, mas reposiciona-o na categoria, tornando-o mais atrativo e, por isso, competitivo.
Interior modernizado
Se por fora o progresso do Stonic é mais do que evidente, no interior a evolução faz-se sentir, sobretudo, na vertente tecnológica — ainda que nem tudo tenha sido alvo de modernização. Nos maiores, por exemplo, os plásticos rígidos mantêm-se em maioria (são particularmente visíveis nas portas), o que denuncia alguma contenção de custos e não beneficia a perceção de qualidade, independentemente da montagem sem reparos. Num segmento onde vários concorrentes têm elevado a fasquia, o Stonic tem, ainda, alguma margem de progressão.
Em contrapartida, a componente tecnológica foi claramente reforçada. O habitáculo passa a integrar dois ecrãs contíguos: um painel de instrumentos digital de 11,1’’ e um ecrã central tátil de 12,3’’. A leitura é clara e intuitiva, embora o nível de personalização do primeiro fique aquém do que alguns rivais já permitem.

O sistema multimédia revela boa fluidez de funcionamento e integra navegação, serviços conectados (Kia Connect e Kia Live) e atualizações remotas (“over-the-air”) para diversas funções — um argumento cada vez mais relevante num contexto de digitalização crescente do automóvel.
A introdução do sistema “multimodo” na consola central ilustra bem o equilíbrio entre inovação e facilidade de utilização. A solução permite alternar entre comandos de climatização e multimédia, mas obriga a um período de adaptação: o mesmo comando pode assumir funções distintas, o que nem sempre favorece um uso imediato e intuitivo.
Completam o conjunto o novo volante de dois braços, o túnel central redesenhado e o seletor da caixa manual, elementos que também contribuem para uma perceção de maior modernidade.
Sem alterações estruturais, o Stonic mantém uma habitabilidade convincente. O espaço para quatro adultos é adequado, com destaque para o espaço traseiro em comprimento e uma altura suficiente para ocupantes até cerca de 1,80 m. A bagageira, com 352 litros, cumpre os padrões do segmento, destacando-se pela boa acessibilidade e aproveitamento do espaço.
Motor satisfaz
A simplificação da gama mecânica traduz-se na adoção exclusiva do motor 1.0 T-GDi de 100 cv e 172 Nm. Trata-se de um bloco de 3 cilindros com injeção direta e sobrealimentação turbo que já é conhecido e continua a revelar-se uma escolha equilibrada para este tipo de proposta. A disponibilidade de binário desde baixos regimes — a partir das 1500 rpm — assegura respostas prontas no quotidiano, com maior eficácia na faixa até às 3200–3500 rpm. É nesse intervalo que o motor se mostra mais disponível e progressivo, garantindo uma condução descomplicada e eficiente.
A caixa manual de 6 velocidades revela bom escalonamento, permitindo tirar partido da elasticidade do motor sem necessidade de recurso constante a reduções. As retomas são convincentes (para a capacidade da mecânica…), contribuindo para uma sensação geral de agilidade, tanto em cidade como fora dela.
A ausência de modos de condução reforça o posicionamento pragmático do Stonic: simples, direto e focado na utilização real. Em matéria de consumos, o valor registado (6,3 l/100 km) mantém-se próximo do anunciado (5,7 l/100 km), confirmando a eficiência real da mecânica. A posição de condução, relativamente baixa para um “crossover”, é um dos elementos distintivos do Stonic. A suspensão privilegia o conforto, embora as jantes de 17’’ penalizem ligeiramente a absorção em pisos degradados.
O comportamento em estrada é previsível e seguro, com reações progressivas e boa estabilidade. Este Kia não pretende destacar-se pela dinâmica, mas cumpre com competência naquilo que se espera: facilidade de condução, controlo e consistência.
Em ambiente urbano, a direção leve é uma vantagem clara, facilitando manobras e reforçando a sensação de agilidade. Também os sistemas de assistência à condução evoluíram, com particular destaque para o apoio à manutenção na faixa de rodagem, agora com atuação menos intrusiva e mais natural.

Posição reforçada
A atualização trouxe também um reforço de conteúdos, o que é essencial para manter a competitividade num segmento particularmente sensível à relação preço/equipamento.
Esta versão Tech inclui jantes de 17’’, iluminação Full LED, ar condicionado automático, vidros traseiros escurecidos, espelhos retrovisores com rebatimento elétrico e dois monitores digitais no painel de bordo. Mantém-se ainda a garantia geral de 7 anos ou 150.000 km, um dos argumentos estruturais da marca. Entre as opções, destaca-se a cor nova Yacht Blue, disponível por 500 €.
Com um preço base de 21.755 € (já com a campanha promocional ativa à data deste ensaio), o Stonic posiciona-se como uma proposta racional num mercado onde os preços têm vindo a aumentar de forma consistente. Mais do que reinventar o conceito, esta atualização reforça aquilo que sempre foi o principal argumento do Kia: equilíbrio. Entre custo, equipamento, desempenho e facilidade de utilização, este segmento B continua a apresentar-se como uma escolha lógica – e particularmente ajustada às exigências do condutor português.
Num segmento onde a diferenciação é cada vez mais difícil, a Kia optou por evoluir de forma inteligente. E, neste caso, volta mesmo a dar cartas, depois de baralhá-las!
































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