Renault Clio E-Tech Full Hybrid 160 Esprit Alpine
A história dos utilitários da Renault tem novo capítulo com esta sexta geração do Clio, que tem desenho audaz e pacote tecnológico muito reforçado. Infelizmente, no nosso País, a fiscalidade automóvel compromete o desempenho comercial de um carro que também é muito eficiente, uma vez que o Imposto Sobre Veículos (ISV), caduco, penaliza a capacidade do motor de combustão interna montado nesta versão E-Tech Full Hybrid. Ainda assim, para a marca do losango, este carro representa mesmo um passo em frente?

À primeira vista, o novo Renault Clio pouco tem em comum com o antecessor. Está mais expressivo, sem perder a filosofia compacta que o popularizou, mantendo-se como um dos pilares da estratégia europeia da marca francesa. Com cerca de 17 milhões de unidades vendidas desde a primeira geração (1990), este concorrente no segmento B adapta-se aos tempos atuais por privilegiar, sobretudo, a eficiência e a tecnologia (no segundo caso, destacam-se os serviços conectados).
A base técnica mantém-se (plataforma CMF-B), mas a imagem foi revista de fio a pavio. As linhas mais fluidas combinam-se com uma grelha rebaixada e proeminente, ladeada por óticas embutidas (chamam-lhes “superfícies negativas”) com elementos escurecidos. As luzes diurnas, posicionadas nos extremos do para-choques, reforçam a perceção de largura do automóvel. Atrás, os farolins bipartidos com máscaras pretas também são inéditos, tal como as jantes de 18’’, as maiores de sempre num Clio e de série nesta versão de topo Esprit Alpine. As borrachas das janelas camufladas elevam a perceção de qualidade exterior e depuram a linha de cintura.

OpenR Link com Google integrado
A apresentação interior é um dos pontos fortes do Clio, tanto pela qualidade de construção como pela dotação tecnológica, uma das mais completas do segmento. Embora continue a recorrer, maioritariamente, a plásticos duros, a montagem apresenta bom nível. Na versão Esprit Alpine, os revestimentos em Alcantara, a faixa cromada no painel de bordo com transição cromática junto às portas, o volante de desenho mais dinâmico, os bancos desportivos e os pespontos azuis reforçam a sensação de cuidado e orientação desportiva. A iluminação ambiente LED também merece referência.
A conectividade assume papel central. O Clio, no painel de bordo, tem dois monitores de 10,1’’: um para a instrumentação, com diversos modos de apresentação, incluindo navegação, e outro para o sistema multimédia. No segundo, destaque para o OpenR Link com Google integrado, com navegação pelo Google Maps, comandos de voz, acesso a aplicações e integração simples no quotidiano do condutor. A utilização confirma a rapidez e a utilidade prática da tecnologia.

As dimensões mantêm-se próximas das do modelo anterior (são só cerca de 7 cm adicionais em comprimento), pelo que a habitabilidade não melhora significativamente. Ainda assim, o Clio continua a ser um utilitário competente para transportar quatro adultos de estatura média, uma vez que a posição a bordo é confortável, independentemente do lugar ocupado, e o espaço para as pernas e em altura é suficiente. Já a largura traseira mais limitada recomenda o transporte de apenas dois ocupantes nos bancos posteriores. Seja como for, o Renault não ambiciona grandes aptidões familiares, tanto mais que a capacidade da bagageira também não impressiona, com 309 litros nesta versão híbrida, devido ao posicionamento da maioria dos componentes elétricos. Ainda assim, o formato é bem aproveitado. Nota para os vários espaços de arrumação no interior, sobretudo entre os bancos dianteiros.

Condução muito económica
Evoluindo em relação à versão anterior, o sistema E-Tech Full Hybrid passa a contar com um motor 1.8 atmosférico a gasolina que funciona em ciclo Atkinson (109 cv/172 Nm), mecânica desenvolvida para aplicações deste tipo e associada a dois motores elétricos, um principal, de tração, com 49 cv e 205 Nm, e outro secundário, que atua como gerador/sincronizador da transmissão multimodo sem embraiagem, com 20 cv e 50 Nm, que também pode ajudar pontualmente na propulsão. O rendimento máximo combinado é de 160 cv e 270 Nm.
O funcionamento do sistema está mais refinado, graças a alterações de “software”, e permite maior eficiência em diversas situações. Neste ensaio, a média do consumo não excedeu os 3,9 l/100 km, registo conseguido sem uma condução particularmente cuidadosa para aumento da eficiência – selecionámos apenas o modo Eco. Uma das razões prende-se com a bateria, que tem apenas 1,4 kWh de capacidade, mas torna o funcionamento no programa 100% elétrico menos dependente do relevo da estrada, desde que o acelerador seja usado com moderação, e também prolonga os períodos sem emissões em piso plano.
O modo Eco, selecionável através de botão no volante, privilegia a suavidade de aceleração e, quando possível, o motor elétrico. Apesar da potência elétrica limitada, é possível acompanhar sem dificuldade o trânsito até cerca dos 50-55 km/h e em localidades. A posição B da caixa aumenta a capacidade de regeneração de energia durante desacelerações e travagens, e tem boa aplicação prática.
Existem mais dois modos de condução: Comfort e Smart (substitui o Perso). São configuráveis pelo condutor e obedecem a uma lógica mais eclética, adaptando a entrega de potência às diferentes fases de condução. Em qualquer caso, o contributo dos motores elétricos torna o Clio E-Tech enérgico e progressivo, convidativo a ritmos elevados sem comprometer em demasia a economia.
Se o objetivo for privilegiar o desempenho, impõe-se o recurso ao Sport, que combina de forma mais intensa o motor térmico e os elétricos para oferecer uma aceleração mais vigorosa. O Clio também é capaz de agradar a um espectro alargado de condutores, desde os que privilegiam conforto e refinamento aos que exigem mais do chassis numa condução mais dinâmica. A Renault aprimorou o compromisso entre agilidade e comodidade, propondo por isso um carro que tem reações confiáveis e bom controlo de movimentos, sem prejuízo do bem-estar a bordo, mesmo apresentando-se equipado com as jantes de 18’’. A posição de condução correta e a conveniência da maior parte dos comandos reforçam a ideia de um automóvel pragmático no dia a dia e capaz de exibir um carácter mais envolvente em estradas sinuosas. A rever, apenas, a acumulação de comandos satélite na zona posterior direita do volante.

Motorização híbrida (des)valorizada
Se a motorização híbrida deste Clio E-Tech é penalizada pela fiscalidade automóvel caduca que continua a vigorar no nosso País, cuja ênfase continua a recair sobre a cilindrada do motor térmico, a Renault procurou mitigar a questão ao disponibilizar esta versão apenas no nível de equipamento de topo: no Esprit Alpine, jantes de 18’’, sensores de estacionamento, carregador sem fios para telemóveis, conectividade avançada, bancos em pele e Alcantara com pespontos contrastantes em azul, entre muitos outros elementos. O preço base é de 28.990 €; a unidade ensaiada custava 29.841 €.
Apesar do custo relativamente elevado, o Clio E-Tech destaca-se pela eficiência real, sem penalizar o desempenho geral nem introduzir preocupações com a autonomia elétrica. Tem um dos sistemas híbridos mais competentes do segmento B. A dotação tecnológica reforça a sua mais-valia, e este novo Clio, tão diferente do antecessor na aparência, preserva a essência em termos de condução, facilidade de utilização e robustez de construção, voltando a figurar entre as propostas mais atrativas e completas da categoria. Ainda assim, se a prioridade forem os custos de aquisição e utilização, a versão Eco-G bifuel (disponível no nível Esprit Alpine por 26.890 €) poderá ser uma alternativa a considerar.







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