Redes inteligentes poupam milhões
A expansão do automóvel elétrico vai exigir investimentos importantes nas redes de distribuição de eletricidade europeias, mas parte substancial da despesa poderá ser evitada através da gestão inteligente do carregamento. Um estudo realizado pela Siemens, encomendado pela EIT Urban Mobility, ChargeUp Europe e Associação Europeia de Fabricantes de Automóveis (ACEA), estima uma poupança potencial de 10,6 mil milhões de euros até 2030.

Sem gestão inteligente da carga dos veículos elétricos, o investimento necessário para reforçar as redes de distribuição é estimado em 24,7 mil milhões de euros. Com sistemas capazes de coordenar os períodos e a potência de carregamento, aproveitando melhor a capacidade já existente e evitando os picos de procura, a necessidade de investimento baixa para 14,1 mil milhões de euros, uma redução de aproximadamente 43%.
O estudo, intitulado “Electricity Grids in Europe”, analisou 64 cidades de 30 paíse, modelando a evolução da frota elétrica, os hábitos de carregamento, a procura de eletricidade e o impacto sobre as redes até ao final da década.

Todas as cidades precisam de reforçar a rede
O estudo não conclui que o crescimento do automóvel elétrico possa ser acomodado sem investimento adicional, apesar das poupanças possíveis. Pelo contrário: todas as 64 cidades analisadas necessitarão de algum tipo de reforço das respetivas redes até 2030, num cenário em que a frota europeia de automóveis elétricos deverá aumentar 3,8 vezes relativamente a 2024.
As necessidades variam de forma significativa entre regiões. Sem gestão inteligente do carregamento, a Europa Central concentra cerca de 15,4 mil milhões de euros de investimento, contra 3,8 mil milhões nos países nórdicos, 3,35 mil milhões na Europa de Leste e 2 mil milhões no Sul da Europa, segundo a modelação apresentada no estudo.
Entre as cidades analisadas, Berlim poderá necessitar de cerca de 1,15 mil milhões de euros, Amesterdão de mais de 1,1 mil milhões e Munique de quase 900 milhões. Para Paris são estimados aproximadamente 490 milhões, Barcelona 220 milhões, Estocolmo 161 milhões e Roma 123 milhões de euros.

Carregamento em casa é o maior desafio
Um dos resultados mais interessantes diz respeito ao local onde os automóveis são carregados. Segundo o estudo, 77,7% do investimento necessário no reforço físico das redes será concentrado na baixa tensão, devido ao carregamento doméstico. A explicação está na importância que a casa continuará a ter no abastecimento dos elétricos. O modelo prevê que 55% a 62% dos proprietários de automóveis com a tecnologia residentes nas cidades analisadas disponham de carregamento doméstico em 2030. Onde essa possibilidade for menor, aumentará, em contrapartida, a dependência da infraestrutura pública.
É aqui que entra a gestão inteligente. Em vez de todos os automóveis começarem a carregar assim que são ligados à rede, independentemente da procura existente, o sistema pode gerir os horários e as potências de carregamento para deslocar consumos para períodos de menor utilização da rede. Desta forma, é possível acomodar mais veículos utilizando a infraestrutura já instalada e reduzir a necessidade de dimensionar a rede para responder apenas aos momentos de procura máxima.

Carros elétricos multiplicam-se até 2030
As diferenças entre mercados europeus continuarão, contudo, muito acentuadas. O modelo da Siemens prevê que, em 2030, os automóveis elétricos representem 27,3% da frota de ligeiros de passageiros na Suécia e 15,7% na Alemanha, mas só 4,6% em Itália, 4,5% em Espanha e 2,5% na Polónia.
A eletrificação dos comerciais ligeiros também deverá acelerar. A quota de BEV prevista para estas viaturas chega aos 22,7% na Suécia e 9,1% na Alemanha, enquanto na Polónia a frota poderá aumentar quase 10 vezes face a 2024.
Para Sigrid de Vries, diretora-geral da ACEA, o automóvel representa apenas uma parte da equação: as redes terão de acompanhar a crescente adoção dos veículos elétricos, sobretudo a nível local. A responsável defende que a capacidade de carregamento inteligente já existente nos veículos terá de passar da teoria para soluções que funcionem efetivamente no terreno, acompanhadas por investimento direcionado e maior conhecimento da capacidade disponível em cada rede.

O estudo identifica obstáculos à concretização integral da poupança estimada. A gestão inteligente exige digitalização e monitorização da rede, equipamentos capazes de comunicar entre si, enquadramento regulatório adequado e incentivos económicos que permitam aos operadores beneficiar da flexibilidade proporcionada pelos automóveis elétricos.







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