Renault: tsunami chinês e guerra de preços
O setor automóvel europeu vive um momento altamente disruptivo, pressionado pela transição energética e pelo avanço “agressivo” dos fabricantes chineses. Para marcas europeias como a Renault, o grande desafio passa por reduzir custos sem abdicar da qualidade e da autonomia, como admite Philippe Brunet, Diretor Tecnológico (CTO) do grupo francês, que alerta para um “tsunami” chinês capaz de alterar profundamente o panorama da indústria e do mercado na região.

Em declarações aos jornalistas no Mondial de l’Auto, em Paris, França, Brunet traçou um retrato pragmático da transformação em curso e da pressão crescente sobre os fabricantes europeus, que terão de acelerar a redução dos custos de desenvolvimento, sobretudo nos automóveis elétricos, para conseguirem responder à ofensiva chinesa.
Interrogado sobre se já foi alcançada a paridade nos custos de desenvolvimento entre modelos com motores térmico e elétricos, Brunet explica que a diferença é cada vez mais reduzida, embora a dimensão da bateria continue a pesar significativamente no preço final.
“O investimento já não é muito diferente. O preço dos elétricos está relacionado com a dimensão da bateria – quanto maior for, maior o diferencial de preço para um carro com motor de combustão. Na próxima geração de automóveis, que chegará em 2028, pretendemos que um elétrico tenha o mesmo preço de um híbrido (HEV). E, de acordo com as nossas previsões, podemos consegui-lo”, disse Brunet.
"A tecnologia está a ficar mais madura e a melhorar, o que permite baixar os preços”
De acordo com o mesmo responsável, diversos elementos importantes na equação da eletrificação “estão a melhorar significativamente, dos motores às baterias. Os elétricos são muito mais simples do que os carros com motores térmicos. A tecnologia está a ficar mais madura e a melhorar, o que permite baixar os preços”. A pressão sobre os custos assume particular importância perante aquilo que já está a acontecer na China. Segundo o responsável técnico do Grupo Renault, a batalha concorrencial deverá provocar uma consolidação profunda do setor e fazer desaparecer vários fabricantes.

“Na China, vive-se uma guerra que não conseguem imaginar e o mercado está a sofrer bastante. O volume de vendas em setembro de 2026 baixou 30% em comparação com o mesmo mês do ano passado. Já imaginaram se isso acontecesse na Europa? Estaríamos mortos!… Mas isto é o que eles estão a enfrentar porque o governo decidiu acabar com os incentivos. Sabemos que a consolidação vai acontecer e que muitos fabricantes vão morrer.”
Brunet descreve um cenário em que cada construtor procura ganhar vantagem através do preço: “É muito simples: estão a baixar os preços para tentar matar os outros fabricantes antes deles, dizendo ‘sou mais barato, pelo que devem comprar o meu carro’. Uma ‘guerra’ estranha, mas joga-se assim”. Para o responsável da Renault, é precisamente o preço que acaba por determinar grande parte das decisões dos consumidores, mesmo quando existe uma predisposição favorável à eletrificação.
“Independentemente das ideias e teorias, há só uma coisa que ajuda a ter clientes – o preço!"
“Independentemente das ideias e teorias, há só uma coisa que ajuda a ter clientes – o preço! Muita gente diz que gostava de ter um elétrico e que até quer salvar o planeta, mas se um carro a gasóleo for mais barato, escolhem-no”, garante. É neste contexto que Brunet enquadra a estratégia dos construtores chineses na Europa. “A estratégia é simples: chegam, apontam ao segmento e propõem um carro com o equipamento certo, mas com um preço 30% inferior. Fazem o mesmo em todo o mundo. E são tão agressivos que estão a ganhar quota de mercado a um ritmo louco.”

Segundo Brunet, esta ofensiva não pode ser comparada com a chegada das marcas japonesas e coreanas à Europa. “Há quem diga que ‘não se preocupem, porque já vieram os japoneses e sobrevivemos, depois vieram os coreanos e sobrevivemos, está tudo bem’. Não, isto é completamente diferente. A China é uma espécie de ‘tsunami’.”
Brunet sustenta o alerta com a evolução das quotas de mercado: “Se olharem para o mercado europeu, os japoneses têm cerca de 12% de quota, os coreanos entre 12%/13% e ambos estão a decair por causa dos chineses. Em 2023, o conjunto das marcas chinesas representava menos de 2%. No final deste ano ficará acima dos 10%. Temos de lutar contra isto. Se não o fizermos, não sobrevivemos”. O responsável resume a resposta necessária em três palavras: “Preço, preço e preço”. E reforça: “É uma ‘guerra’, não é um jogo”.

Twingo como aprendizagem
A Renault reconhece, porém, que a velocidade de desenvolvimento da indústria chinesa também pode servir de aprendizagem. Foi com esse objetivo que criou naquele país um núcleo de investigação e desenvolvimento, o ACDC, tendo o novo Twingo como primeiro resultado visível dessa abordagem. Mais do que introduzir tecnologias revolucionárias, o projeto demonstrou que é possível desenvolver um automóvel elétrico de raiz em menos de dois anos e incorporar novos métodos de trabalho nos processos do grupo.
“Diria que o Twingo não tem qualquer revolução tecnológica. Foi o nosso primeiro carro com bateria LFP, mas não apresenta qualquer novidade técnica. A grande inovação foi o tempo de desenvolvimento inferior a dois anos.” Brunet recorda o ceticismo inicial em torno do projeto. “Quando me pediram para ir à China montar o ACDC, todos me diziam que era impossível, mas o carro está na rua com um custo competitivo. Não tivemos problemas de qualidade e as vendas estão a arrancar muito bem. Francamente, é um sucesso”.
“Este projeto vai ser o nosso padrão para todos os modelos novos"
Para o CTO da Renault, o principal efeito do programa vai muito além do próprio Twingo. “Este projeto vai ser o nosso padrão para todos os modelos novos – para aqueles já em desenvolvimento não é possível. Os programas que comecem agora durarão no máximo dois anos e esta é uma forma de melhorar o investimento.” Quanto à tão propalada “velocidade” chinesa no desenvolvimento, Brunet considera que a diferença fundamental não está apenas nos recursos disponíveis, mas sobretudo na forma de organização. As várias equipas trabalham em paralelo, de maneira integrada e coordenada desde o início, em contraste com processos europeus tradicionalmente mais compartimentados.
“É, na verdade, um trabalho de equipa: é isso que os chineses fazem muito bem e é isso que temos de aprender, porque na Europa somos um pouco mais individualistas. É uma questão de mentalidade”, concluiu






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