China domina setor automóvel em 2035
A China poderá ocupar seis das 10 posições na tabela dos maiores fabricantes mundiais de automóveis em 2035, uma mudança capaz de alterar radicalmente a hierarquia atual da indústria. Esta conclusão resulta do mais recente estudo da consultora KPMG (Global Automotive Executive Survey), que ouviu 775 executivos de topo do setor em todo o mundo.

Entre os inquiridos, 48% responderam que seis dos 10 maiores grupos automóveis em 2035 estarão sedeados na China, enquanto apenas 24% disseram que esse cenário é improvável. A própria KPMG diz que estes resultados expressam as expectativas dos participantes no estudo e não de uma previsão da consultora.
No entanto, a evolução registada no setor automóvel durante os últimos anos contribui para esta perceção. Segundo o Center for Automotive Research, os fabricantes chineses aumentaram a sua quota do mercado mundial de 14% em 2020 para 25% em 2025, enquanto as vendas totais das empresas chinesas quase duplicaram no mesmo período.

BYD e Geely já figuram entre os 10 maiores fabricantes mundiais, embora as posições neste “ranking” variem em função da metodologia utilizada e das marcas consideradas em cada grupo. Em 2025, de acordo com dados da MarkLines, BYD na sexta posição e Geely na oitava, atrás de Toyota, Volkswagen, Hyundai-Kia, Stellantis e General Motors.
Para que seis fabricantes chineses integrem o “top-10” em 2035, outras quatro empresas terão de ultrapassar alguns dos fabricantes que dominam, atualmente, a indústria mundial.

Quota chinesa quase duplicou
Segundo a KPMG, o crescimento da China não resulta apenas da capacidade de produção. A vantagem estende-se a áreas como baterias, “software”, sistemas avançados de assistência à condução, inteligência artificial e controlo das cadeias de fornecimento.
O estudo mostra também que 51% dos executivos acreditam que o “software” e as tecnologias digitais serão a principal fonte de diferenciação competitiva das empresas automóveis em 2035. Para a KPMG, a mudança favorece os fabricantes que conseguiram integrar mais rapidamente a eletrificação, a eletrónica e os serviços digitais.
Os apoios estatais também desempenharam um papel importante na revolução. Estudo publicado em junho pela OCDE concluiu que, entre 2010 e 2024, os fabricantes automóveis chineses receberam muito mais do que os fabricantes baseados nos países abrangidos pela organização. Isto inclui incentivos fiscais, subsídios diretos e financiamento em condições inferiores às praticadas pelo mercado. E identificou-se um aumento significativo destes mecanismos a partir de 2019, associado à aposta chinesa nos denominados veículos de nova energia.

Crise interna e EUA como obstáculo
O crescimento internacional coincide com crise no mercado doméstico. As vendas de automóveis na China recuaram cerca de 20% no primeiro semestre do ano, enquanto as exportações ganharam importância. Esta pressão interna está a obrigar os fabricantes a procurar crescimento nos mercados de exportação, com Europa, Sudeste Asiático, América Latina e Médio Oriente na linha da frente.
Andreas Ries, responsável mundial pelo setor automóvel da KPMG, recorda que existem mais de 140 marcas no mercado chinês e considera que esta estrutura não poderá manter-se a longo prazo. O mercado norte-americano apresenta-se como o maior obstáculo à expansão mundial das marcas chinesas.
Os EUA impõem tarifas muito elevadas aos automóveis fabricados na China e introduziram restrições à utilização de “software” e componentes chineses em carros conectados, tornando quase impossível, nas condições atuais, uma entrada direta em grande escala, o que aumenta a pressão competitiva sobre os restantes mercados.

Simultaneamente, as ligações entre fabricantes ocidentais e empresas chinesas multiplicam-se. A Volkswagen mantém uma parceria tecnológica com a XPENG, a Stellantis controla uma participação na Leapmotor, a Mercedes-Benz tem a BAIC como maior acionista individual e a Geely controla a Volvo e a Polestar, entre outras marcas.
Antecipar 2035 é uma missão quase impossível, mas os fabricantes chineses representam já um quarto do mercado mundial e estão a disputar as posições ocupadas, historicamente, pelos grandes construtores europeus, japoneses, sul-coreanos e norte-americanos.






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